11/03/2012


“As aventuras de Sherlock Holmes” de Arthur Conan Doyle. Zahar (2011), 416 páginas.



Sherlock Holmes dispensa apresentação, assim como seu companheiro Dr. Watson que é o narrador das doze histórias que compõem o livro. Todas, excelentes. Elas foram inicialmente publicadas na Strand Magazine no fim do século XIX. O livro é uma edição de bolso da Zahar, mas tem capa dura, ilustrações, excelente papel e um formato que não lembra em nada os livro de bolso tradicionais.
Quanto as histórias, é impressionante como em trinta páginas Doyle consegue criar uma atmosfera de mistério que prende leitor que não consegue parar de ler até a solução. Tão impressionante quanto a qualidade do texto é o seu final, que parece que vai ficar insolúvel, mas em poucos parágrafos Doyle mostra como Holmes simplifica fazendo-a parecer trivial. As histórias envolvem reis, túneis para assalto a banco, falsários, a Ku Klux Klan, drogas, roubos... enfim, todos os atrativos de uma boa histórias policial.
Outro grande destaque são as máximas imortalizadas por Sherlock, como a mais famosa dele que está no conto “O diadema de Berilos” ‘depois que se exclui o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, deve ser a verdade’.
Indispensável a todos que apreciam boas histórias escritas em um alto nível.

Classificação pessoal e arbitrária: cinco estrelas

04/03/2012


“Beatriz” de Cristovão Tezza. Record (2011), 142 páginas.

Cristovão Tezza já é absolutamente consagrado depois de “O filho eterno”, mas mesmo assim continua na ativa nos brindando com seu texto excelente. Neste livro, há uma novidade por ele ser de contos, todos envolvendo uma das protagonistas do romance de 2010 de Tezza “Um erro emocional”, Beatriz. São sete contos, narrados por Beatriz e pelo outro protagonista de “Um erro emocional”, o escritor famoso na ficção Paulo Donetti. 
O primeiro conto narra como se conheceram os dois protagonistas e dá início a toda a saga de Beatriz. A partir daí Tezza nos presenteia com verdadeiras obras-primas, transformando situações comuns em críticas sutis. 
A vida cotidiana de Beatriz como professora particular serve de plataforma para uma crítica a maneira burguesa de criar os filhos e a sociedade de consumo. Uma viagem de Paulo Donetti de ônibus se transforma em uma crítica a ganância e cobiça por dinheiro que não respeito nem os laços familiares.
Tezza também se aventura em contos policiais, como em “Beatriz e a velha senhora”, no
entanto, este caráter é construído aos poucos e só se revela por completo bem no final. Um dia ruim também se transforma em um conto policial que inclui tiro e morte quando Beatriz vai revisar um livro de um senhor de idade na periferia de Curitiba.
As aventuras amorosas de Beatriz não foram deixadas de lado, como quando um ex-colega dela a pede em casamento, mas com um detalhe que indica, muito sutilmente, que o pedido de casamento foi feito por um homossexual. E o romance de Beatriz se efetiva no último conto quando ele se envolve com um dono de sebo, e por meio do qual, Tezza mostra como todos nós somos carentes de afeto e atenção.

Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas

27/02/2012

"Memórias de minhas putas tristes" de Gabriel García Márquez. Record (2010), 127 páginas.



García Marquez dispensa apresentações como vencedor de Nobel de Literatura. "Memórias de minhas putas tristes" marca o retorno do autor depois de um hiato de 10 anos. A sua narrativa envolvente e com personagem marcantes continuo intacta depois de uma década sem publicar um novo romance.
O enredo gira em torno de um velho jornalista, em uma cidade do interior da Colômbia, que não tem nome na narrativa, que resolve avaliar sua vida ao fazer seu nonagésimo aniversário. Para comemorar a data, ele resolve procurar uma casa de prostituição que fora clientes durantes décadas em busca de uma virgem. É a relação entre o velho de 90 anos e esta menina de 14 que García Márquez nos leva pela sua literatura do nível mais alto possível.
O personagem é o próprio narrador que faz toda a narrativa se referindo ao próprio livro como suas memórias. O mundo surreal de García Márquez se materializa quando o personagem se apaixona pela garota no que diz ser seu primeiro amor. Esta paixão é platônica, pois o velho nunca consuma o ato sexual com a menina, e tampouco ela conversa com ele em seus encontros na casa de prostituição e ele só ouve aq voz dela uma vez durante todo o livro.
Em meio a assassinatos, conspirações e um crítica social, García Márquez desenvolve o enredo culminando em um final previsível de um amor correspondido. O livro tem todos os itens de um ótimo romance, menos um: é pequeno. Quando se trata de García Márquez esperava-se que ele construisse um enredo maior e mais complexo, não se limitando a histórias curtas e pouco desenvolvidas. Parece que a obra foi escrito com impaciência e sem a mesmo paixão de outrora.

Classificação pessoal e arbitrária: três estrelas e meia.

21/02/2012

"Equador" de Miguel Sousa Tavares. Editora Nova Fronteira (2004), 527 páginas.


O jornalista português Miguel Sousa Tavares se aventurou pela primeira vez aos romances com "Equador", e não poderia estrear de maneira melhor. O romance tem tudo, um épico inserido no contexto do fim do reino de Portugal e nascimento da república, envolve as colônias portuguesas mas o cenário principal são as coadjuvantes históricas ilhas de São Tomé e Príncipe. Histórias de traições conjugais, conspirações políticas e tudo envolvendo o tema da escravidão no início do século XX nas plantações das então colônias portuguesas da África. Histórias de amor dentro de fatos históricos e ficção em doses que deixa o leitor confuso onde começa um e termina outra, enfim, o livro já é um clássico com quase meio milhão de unidades vendidos pelo mundo e já foi adaptado até para uma mini-série em Portugal. Leitura obrigatória a quem agrada história, romance, relações humanas e boa literatura.
O enredo gira e torno de Luís Bernardo Valença, um burguês lisboeta que vive os benefícios da elite portuguesa do início do século XX. Como distração escreve artigos para jornal onde mostra suas opiniões sobre a política colonial portuguesa e a sua exploração da mão de obra escrava mesmo depois da abolição da escravidão. Estes artigos chamam atenção do governo e o próprio rei, em pessoa, o convoca para assumir o governo de São Tomé e Príncipe que está passando por um momento delicado; a economia baseada na exportação de cacau e café principalmente para as colônias britânicas afeta a de todo Portugal, mas a Grã-Bretanha ameaça boicotar estas exportações devido as ilhas usarem trabalho escravo. A missão de Luís Bernardo é provar a um cônsul inglês a ser nomeado que não trabalho escravo na ilha.
Na tentativa de cumprir sua missão, o recém nomeado governador vai entrar em conflito com o interesse dos colonos de São Tomé e Príncipe e com os da própria coroa portuguesa. O enredo mostra como a vida pessoal do governador vai influenciar na sua vida pública. Em meio a tudo isto, Tavares nos envolve com uma narrativa perfeita, que inclui cenas de erotismo e tortura, traição e conspiração. Ou seja, tudo que espera de um bom livro.
O único ponto que o livro deixa a dever, é que o final parece apressado. O desenrolar do enredo construído em quase quinhentas páginas se encerra rapidamente, quase como uma só vez. O livro merecia um final mais longo e detalhado.

Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas e meia.


18/02/2012

Bento Gonçalves, terra do vinho e muito mais

Bento Gonçalves fica a 109 km de Porto Alegre e 250 de Araranguá via Rota do Sol. É uma viagem incrível, que vale a pena fazer para todos e obrigatória para os amantes de vinho e uva.
As atrações são muitas, mas as principais são: vale dos vinhedos, caminho das pedra, Vinícola Autora e a Salton.
Para chegar ao Vale dos Vinhedos basta sair de Bento Gonçalves pela Pipa Pórtica e ir em direção a Porto Alegre alguns quilômetros via RST 470. Para entrar no vale basta seguir pela RS 444 - convenientemente chamada de Caminho do Vinho. São várias vinícolas uma do lado da outra, desde as gigantes como a Miolo até as familiares como, a autodeclarada, menor delas Terragnolo. 
A primeira parada obrigatória é na Vinícola Miolo. Se a visita ocorrer na colheita da uva, a visão dos parreirais cheios é fantástica.
A visitação a Miolo custa R$ 10,00 e além do tour pela vinícola dá direito a uma degustação e um bônus de R$ 5,00 em compras na loja. Continuando pelo Caminho do Vinho uma visita a Cave de Pedra é ótima, pela ver a construção recente que imita os castelos europeus, a vinícola tem uma proposta de fazer vinhos de exceção, e por isto com preços mais elevados. A visitação pelo interior da vinícola é pago, mas ao prédio e as torres não, e vale a pena subir as escadas para ter uma bela vista do vale.
A grande atração do Vale, no entanto, estão nas vinícolas familiares. Seguinte pelo Caminho dos Vinhos até a última vinícola do Vale chegamos a Calza. O antedimento é feito pelos próprios proprietários que não tem pressa em explicar tudo e oferecer uma degustação gratuita de seus ótimos vinhos, em especial o Chardonnay.
Voltando pelo Caminho do Vinho, pode-se comprar na estrada mesmo, em um tenda bem precária uvas e vinhos ótimos e a um preço muito bom. Para seguir pela viagem pelo reino de Baco deve-se virar a esquerda na Via Trento. Vale iniciar pela Barcarola, que oferece degustação de seus vinho sem custa e dentro de uma casa de madeira centenária. Vale também fazer um lanche ou almoçar no Gionardi Café Colonial - também em uma casa de madeira linda, oferece geleias caseiras também, tudo a um preço justo.
Visitas a vinícolas como Larentis, Dom Cândido, Marco Luigi, Terragnolo, Peculiare e Titton não cobram pela visitação e degustação - mas atenção, nem todas aceitam cartão de crédito na suas lojas. A mais interessante destas todas é a Larentis, que além de fazer um pinotage como poucos, mostra como é tudo feito dentro da propriedade, desde a plantação de uva, moagem, fermentação, envelhecimento, engarrafamento, venda e administração. A Casa Valduga cobra R$ 20,00 a visitação e R$ 70,00 por um curso de quatro horas nos domingos. A saída da Via Trento é bem em frente ao Pórtico Pipa da Cidade.
A visita a vinícola mais completa, sem dúvida, é a Salton. Para tanto é necessário seguir a RST 470 na direção oposta ao sentido Porto Alegre por uns 15 km, mas vale a pena. A visita é de graça, a degustação custa R$ 10,00 e dá direito a um bônus neste valor na loja. A planta da fábrica é nova, e foi feita para agregar a visitação junto com a fabricação, O próprio prédio em sim já é uma atração, com um jardim lindo e um relógio de sol incrível.

Outra atração imperdível de Bento é o Caminho das Pedras, são casa coloniais que vendem seus produtos diretamente do produtor e ainda resgatando a origem de suas fabricações. A visitação ocorre entre as 9 e 17h30. Começa pela Casa do Tomate e do refrigerante que mostra uma plantação de tomate e como seus fabricados diversos de seus derivados e ainda a maneira como os primeiros colonos faziam refrigerante. a próxima parada obrigatória é ao moinho de farinha de milho, onde se compra uma farinha para polenta recém-moída.

A Casa da Ovelha oferece produtos finos deste animal, mas com preços bem salgados, também oferece uma degustação a R$ 5,00 com direito a visita a parte superior da loja que é uma espécie de museu. As visitas seguintes são a Casa de Massas e Artesanatos e a Casa da Tecelagem que deixa as mulheres enlouquecidas com os produtos de alta qualidade e preço acessível, e a casa centenária em si já é uma atração, foi desmontada de trazida de Flores da Cunha. Em frente está o restaurante Casa Vanni que também oferece lanches, a comida eu não sei, mas os preços são um pouco salgados. 
Para quem viu o filme Quatrilho, a visita a Cantina Strapazzon é imperdível, foi lá que parte do filme foi feito. Por R$ 5,00 pode-se vistar a casa, degustar vinhos e sucos, comer uva do pé e experimentar copa, queijo e salame. Tudo feito pela própria família.

As próximas atrações são Vinícola Salvati, Vitiaceri uvas e a imperdível Casa da Erva-mate onde pode-se ver como se a fabrica de maneria artesanal e ainda comprar o produto colonial a R$ 3,50.
Bento é um lugar para se visitar mais de uma vez, Até o caminho de volta é lindo via Rota do Sol.

Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas e meia.

19/01/2012

"O Grande Projeto - novas respostas para as questões definitivas da vida" de Stephen Hawking e Leonard Mlodinow.



Um livro esclarecedor e de leitura agradável, assim pode-se definir o livro de Hawking e Mlodinow. Os autores passeiam pelo mundo da física moderna e filosofia quase em uníssono. Os capítulos iniciam com um pouco de história da ciência e a defesa inconteste dela perante as hipóteses metafísicas. Discutem de maneira clara o conceito e a arbitrariedade do real, e da dependência do modelo para discutir a realidade. Segue com um capítulo inteiro para introduzir conceitos de mecânica quântica, por mais estranho que eles pareçam a um leitor não especialista, e segue pela busca da ciência pela teoria unificada que seria capaz de explicar todo o comportamento do Universo.
O livro continua com a mistura de ciência e filosofia quando discute como nós somos frutos de um grande acaso cósmico, e quais as condições que levaram a existência de vida na Terra, desde a origem do Universo. E encerra pela busca inacabada pela teoria M.
O livro é indispensável aos que acreditam na ciência, pode chocar, no entanto, religiosos com os argumentos fortes em defesa da prática científica. Pode chocar também quando se propõe a discutir questões como a existência de uma realidade e a existência de multiversos. Por poder chocar tanto, é de leitura indispensável.

Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas

25/12/2011

"As Esganadas" de Jô Soares. Companhia das Letras (2011)

Jô Soares é mais conhecido por seu humor e programa de entrevistas diário na televisão, mas tem uma obra literária de respeito que já o faria famoso se esta fosse sua única carreira. Livros como “O Xangô de Baker Street” já são clássicos do estilo policial-histórico-bemhumorado. Porém, em “As Esganadas”, Jô repete a fórmula consagrada em seus primeiros romances, o que torna este livro cansativo e sem originalidade, marca dos anteriores. Ao melhor estilo de Agatha Christie, Jô parece sempre estar escrevendo o mesmo livro com personagens diferentes.
O livro trata de um serial killer que tem preferência por gorda, motivado por uma relação mal resolvida de sua infância. O detetive perseguidor é do mesmo estilo dos primeiros livros, o sabichão-atrapalhado, que desta vez é um português, Tobias Esteves. O assassino também é do mesmo formato dos romances anteriores de Jô, tipo esquisitão, desta vez encarnado por Caronte, um dono de funerário que já apresentado como o assassino do livro logo nas primeiras páginas.
Mesmo sendo um livro novo, o leitor de outras leituras de Jô tem a impressão que já leu o livro, tornando a leitura aborrecedora. No entanto, os pontos altos ainda estão lá, a ligação entre personagens reais e fictícios, o humor e a incorporação no enredo do livro de grandes fatos históricos. Enfim, o livro é bom, muito bom, deve ser melhor ainda para quem não leu os romances anteriores do autor.


Classificação pessoa e arbitrária: três estrelas

12/12/2011

"O Pêndulo" de Amir D. Aczel.

A história de como tivemos prova inconteste de que a Terra realmente gira é contada quase como um romance por Aczel, tendo como protagonista o rejeitada cientista pelos seus pares da época, Léon Foucault. Nos dezoito capítulos do livro, o autor nos leva a França do século XIX, incluindo questões políticas, econômicas e históricas que nos fazem entender melhor o contexto em que vivia Foucault quando construiu seu famoso pêndulo que mostrou que a Terra realmente gira.
O livro começa com a vida de solteira e na casa da mãe do grande cientista e da sua não formação acadêmico, e, por conseguinte realmente pelos cientistas acadêmicos franceses. O trabalho de divulgador científico em um jornal da época é outro destaque dado a vida de Foucault. O autor não deixa os leitores leigos desguarnecidos ao fazer explicações simples e objetivas da física e matemática envolvidas na explicação de como o pêndulo prova que a Terra gira, por meio da explicação da Força de Coriolis.
Outro aspecto interessante, é a relação próxima entre Napoleão III e Foucault, que só trouxe tranquilidade para o cientista desenvolver seu trabalho. Se o livro de Aczel fosse um romance, Napoleão III seria o coadjuvante de tanto que é citado ao longo da obra.
Apesar de ser interessante e acessível, o livro traz algumas incorreções e imprecisões tanto de física como de história da ciência, que não podem ser ignoradas. Porém, no geral a obra é uma defesa incisiva da ciência e da defesa do cientista desenvolvê-la.

Classificação pessoal e arbitrária: duas estrelas e meia.

26/09/2011

"Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Márquez

É desnecessário apresentar García Marquez, um dos maiores escritores vivos de todo o mundo, fato que explica ter sido vencedor do Nobel de Literatura de 1982. A obra que deu impulso a sua carreira foi justamente “Cem anos de solidão” escrita no México e publicada originalmente na Argentina em 1967.
A obra é... uma viagem. Em todos os sentidos, desde o sentido da gíria até no sentido de uma viagem a um mundo criado nos mínimos detalhes pelo autor, que transporta o leitor para uma esfera surreal que ele próprio criou, que não tem localização precisa, mas tem história e nome; Macondo. O livro narra a história de uma das famílias fundadoras, os Buendía, de seus patriarca e matriarca, José Arcadio e Úrsula, desde o motivo que eles quiseram fundar uma nova aldeia até o seu fim, junto com o da família e seu último membro, Aureliano.
O livro poderia ser classificado como um romance surreal, ou de situações surreais. García Marquez não tem nenhum compromisso em descrever situações verossímeis, e isto deixa sua narrativa cada vez mais atrativa, pois nunca se sabe o que acontecerá em Macondo na próxima página. Pode ser uma insônia coletiva, ou um velho amarrado a uma árvore durante anos, ou uma jovem que sobe aos céus, ou mortos que voltam e dialogam de verdade com os vivos, ou ainda pessoas de quase duzentos anos; tudo pode acontecer quando o autor é García Marquez.
O romance não tem a obrigatoriedade de ser cronológico, Marquez anda pelo tempo sem nenhum compromisso, indo e vindo com uma rapidez que pode confundir o leitor. Porém, o início do livro é muito chato, até o leitor entrar no clima da obra demora, depois a magnitude do texto e enredo de García Marquez se revela a cada linha.
O livro tem seu enredo ficando mais atrativo a partir do momento em que um dos membros da família se lança em uma guerra civil, e como isto afeta a vida do povoado. O que pode confundir o leitor é a repetição de nomes, são muitos Aurelianos e Josés, em certos momentos não se sabe mais sobre qual deles García Marquez está escrevendo.
O final do livro não fica devendo ao seu todo, tem doses de drama e a surpresa está presente até as últimas páginas. Sabe-se que Aureliano será o último membro da família desde antes de começar a ler o livro devido a uma árvore genealógica que está presente logo na primeira página que traz esta informação, porém a maneira como isto ocorre deixa o leitor mais atento surpreso.
Acompanhar a saga dos Buendía no povoado de Macondo que eles próprios fundaram é uma experiência literária que ninguém deve se privar. As situações descritas sem nenhum compromisso com a realidade, não deixam o romance cair na monotonia. A criativa e originalidade de García Marquez fazem dele um autor especial, entre todos os autores especiais. Mesmo se não fosse por isto, deveriam ler este romance para seguir o conselho dele dado ao amigo Eric Nepomuceno “Leia tudo, para ver se aprende a escrever”.

Classificação pessoal e arbitrária: cinco estrelas

14/08/2011

"Pilatos" de Carlos Heitor Cony. Alfaguara (2009), 224 páginas.




Cony dispensa maiores apresentações, ele é dos maiores escritores brasileiros vivos e membro da Academia Brasileira de Letras. Em sua biografia, o que mais chama atenção é que quando publica um livro, seu nono, na década de 1970, resolve não mais escrever por estar satisfeito. Apesar de ter declinado de sua decisão mais de vinte anos depois, o livro que levou a este extremo deve ser muito especial, se trata de “Pilatos” e não decepciona em momento algum, é um livro obrigatório.
Se fosse possível apenas uma palavra para definir o livro de Cony eu escolheria surreal. Ao melhor estilo Kafka ele nos leva a situação, surreais, que divertem, angustiam e fazem refletir. O personagem principal e narrador, que tem seu revelado apenas uma vez e quase no fim do livro, é um revisor de um órgão de impressa a beira da falência que mora em um quarto de pensão em estado de quase miséria. As coisas pioram para ele quando ele sofre um grave acidente ao ser atropelado.
No hospital ele descobre que no acidente ele teve seu pênis decepado, e terá que se contentar com um tubo plástico no lugar apenas para urinar. Com uma solidariedade mórbida, as freiras do hospital guardam o pênis em uma recipiente, que vira um talismã para o personagem principal que o carregará durante quase toda a narrativa. Após escapar de uma tentativa de homicídio no hospital, ele é liberado e descobre que está na mais profunda miséria e terá que dormir na rua. Lá ele encontra o outro protagonista do livro, Dos Passos.
Juntos, o narrador e Dos Passos passam para situações mais absurdas possíveis. Entre elas, cedem o pênis do narrador para ser filmado como ator principal em um filme, são presos e torturados, participam de casos de sodomia entre muitas outras. As torturas são uma denúncia sutil de Cony ao momento político em que se passava na década de 1970, com a ditadura militar.
Outro destaque do livro são as histórias escritas por Dos Passos, que Cony reproduzir integralmente em seu texto. Estas metanarrativas são mais absurdas e surreais que a própria narrativa.
Porém o grande destaque para mim foi o fim do pênis do narrador e sua ligação com a demissão dele do seu emprego em um botequim de um português. Ambos as situações, que estão ligados, beiram o mais absurdo dos absurdos e por isto mesmo desconfiam que possam até ser reais.
A morte de Do Passos é mais tradicional, assassinado por engano. O livro começa e termina com este episódio e com a incerteza quanto a vida e sobrevivência do narrador, que pode estar muito bem em cada de nossas esquinas.





Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas e meia

18/06/2011

São Carlos, SP: Museu da TAM

DE-MA-IS, só assim para descrever o Museu da TAM localizado na cidade de São Carlos. O único problema é chegar até o museu que fica na base da TAM na Rodovia SP 318 no quilômetro 249,5. De Santa Catarina é necessário pegar um voo até Campinas e de lá pegar um ônibus até São Carlos, em uma viagem que dura cerca de 2 horas, e ainda tomar um táxi até o museu que custa cerca de R$ 50,00. Mas vale a pena. O ingresso para o museu custa R$ 25,00, estudantes e professores pagam meia.

O pátio de entrada já dá uma amostra do que vem pela frente, com um avião antigo e uma visão dos aviões da TAM em manutenção. O hall já é de tirar o fôlego com aviões da II Guerra Mundial pendurado no teto.

No corredor de entrada é um passeio histórico da aviação. Começa pelas maquetes de Leonardo da Vinci, passando pelos dirigíveis de hidrogênio, pelos heróis brasileiros que lutaram na II Guerra Mundial e outros aviões históricos, como que primeiro rompeu a barreira do som, o Enola Gay que levou a bomba de Hiroshima.

Antes de entrar na exposição de aviões, é exibido um vídeo com a história do museu e da TAM. E quando se abre a porta é de prender a respiração com o que se vê. A exposição é organizada em ordem cronológica, então começa com réplicas do 14-Bis e o São Paulo (primeiro avião construído no Brasil). A seguir hidroaviões e uma série de outras aeronaves em perfeito estado e parecendo novas.

O destaque mesmo fica para os aviões da II Guerra Mundial, exemplares nazistas e aliados estão presente. Mas o grande destaque é um original Republic P47D Thunderbolt que foi utilizado por brasileiros na II Guerra Mundial com o famoso logotipo “Senta a púa” na fuselagem.

Outros destaques são o avião da FAB pilotado por Ayrton Senna, aviões militares mais recente, helicóptero de resgate, um enorme PANAIR, um MK 600, além de um Fokker 100 do mesmo modelo que caiu em Congonhas na década de 1990.

Existem ainda miniaturas, uma exposição de uniformes de bordo de todo mundo, uma loja e lanchonete. A visita ao museu é imperdível, apesar de ser de difícil acesso.

Classificação pessoal e arbitrária: cinco estrelas

17/06/2011

"Farda, fardão, camisola de dormir" de Jorge Amado. Companhia das Letras (2009), 272 páginas

Jorge Amado é um mestre, sem dúvida um dos maiores escritores brasileiros e ninguém poderia se surpreender se alguém o colocasse com o maior de todos. Autor de clássicos como “Capitães de Areia” e “Gabriela, cravo e canela”, tem uma vasta biografia, toda em alto nível. Grande parte de seus clássicos se passam em seu estado natal, a Bahia, e são carregados de sensualidade e de tradições baianas oriundas da África. Este não é o caso de “Farda, fardão, camisola de dormir” que se passa no Rio e quase não sensualidade e referências as tradições africanas, e mesmo assim Jorge Amado consegue escrever um romance espetacular!Como todas as histórias de Jorge, esta também gira em torno de algo inusitado. Um imortal da Academia Brasileira de Letras morre e a trama gira em torno da eleição para sua substituição. Logo no início o leitor é apresentado ao primeiro candidato, tido como favorito, um coronel do exército dito como torturado na ditadura do Estado-Novo, período no qual o livro se passa. Tal indicação não agrada os acadêmicos mais liberais que lançam um candidato azarão, um general do exército da reserva.Então dar-se a batalha do Petit Trianon, onde nem o leitor mais astuto é capaz de prever o final. Jorge nos envolve de tal forma que não conseguirmos nos livrar dos personagens mesmo quando não estamos lendo seu romance, além disto torna a trama tão empolgante e surpreendente que justifica a leitura com calma de cada página escrita por ele.Se não bastasse a narrativa de Jorge, e a história que ele conta em “Farda, fardão, camisola de dormir”, ele se passa em uma ditadura e denuncia as atrocidades cometidas pelo governo Vargas durante a II Guerra Mundial, a corrupção e as torturas incluídas. Isto, por si só, mostra a coragem de Jorge Amado, pois o romance foi publicado originalmente em pleno outro período ditatorial do Brasil no início dos anos 80, período em que se torturou tanto gente ou mais que na era Vargas. É genial a forma como Jorge denuncia as atrocidades de uma ditadura sem sequer fazer referência direta ao período em que o livro foi escrito e que denuncia. Coisa de mestre!

Classificação pessoal e arbitrária: cinco estrelas

05/06/2011

"Morte em Veneza" de Thomas Mann. Fronteira (2010), 115 páginas


Thomas Mann é pouco conhecido para a maioria dos leitores brasileiros do século XXI, no entanto, ele é considerado por muitos um dos maiores escritores do século XX. Tanto que em 1921 recebeu o Nobel de Literatura. O que mais nos liga a ele é o fato de sua mãe ser brasileira, o que já justificaria para nós, brasileiros, a leitura de sua obra. Apesar de sua literatura ter muito de autobiografia, ele não cita suas raízes brasileira em nenhum momento.
Segundo alguns, Mann tinha orientação homossexual que era fortemente reprimida devido a época em que vivia, e tentava por meio de sua literatura lidar com isto. Não é diferente em “Morte em Veneza”. A trama é uma história de amor, platônico, mas amor em essência. O personagem principal é Gustav von Aschenbach um escritor alemão, como Mann, muito aclamado, como Mann, que decide passar as férias em Veneza. Lá ele se apaixona por um rapaz polonês mesmo sem nunca ter falado com ele, e decide escrever um livro neste tempo em que passa em Veneza e está apaixonado.
As coincidências com a vida real não podem ser ignoradas, Mann escreveu “Morte em Veneza” justamente em um período de férias na cidade italiana, no mesmo hotel em que o personagem de sua novela se hospeda. Mas a literatura supera a realidade, na novela de Mann, Veneza passa por um surto de cólera, e Aschenbach sabe que o governo italiano tenta esconder os fatos dos turistas. Porém, ele decide ficar em Veneza, mesmo sabendo do risco que isto significava, apenas para ficar perto de seu amado com quem nunca trocou uma palavra.
Apesar do livro ser uma linda história de amor, em um dos melhores cenários possíveis para isto, ele parece datado da primeira metade do século XX em sua linguagem, ao contrário de outros clássicos que não tem este viés. É um pouco difícil e cansativo acompanhar a narrativa de Mann, e apesar de o livro ser curto, a sua leitura é num pouco demorada e árdua, mas vale a pena conhecer a literatura de Mann, apesar de tudo e uma das histórias de amor mais interessantes que já li.

Classificação pessoal a arbitrária: três estrelas e meia

20/05/2011

"Variedades da Experiência Científica" de Carl Sagan. Companhia das Letras (2008), 304 páginas.


Carl Sagan é o maior divulgador de Ciência que já existiu, autor de clássicos absolutos como “Cosmos” e “Bilhões e bilhões”. Mesmo tendo falecido em 1996 sua obra é tão grandiosa que mais de uma década depois de sua morte ele ainda continua nos presenteando com seus textos esclarecedores inéditos. É o caso de “Variedades da experiência científica”, que é a transcrição de um conjunto de palestras que ele fez em 1985 na Universidade de Glasgow sobre Teologia Natural publicado na segunda metade da década passada.
São nove capítulos, um melhor que o outro. Neles, Sagan, aborda da definição de religião a vida extraterrestre. Ele começa mostrando a imensidão de coisas que existem e quão pouco sabemos a respeito e o quanto temos ainda a aprender sobre o Universo, mas que apesar disto, sabemos muito mais que nossos antepassados e menos que nossos herdeiros. Segue mostrando o perigo de o fanatismo religioso cegar a vasta herança cultural que a ciência nos legou ao longo de séculos e séculos.
Um passeio pelos acasos cósmicos que resultaram na vida humana é tema do terceiro capítulo, nele Sagan faz de maneira irresistível uma defesa da teoria da evolução de Darwin estendida com argumentos cósmicos. Nos seguintes ele argumenta sobre a viabilidade de vida extraterrestre, inclusive abordando sobre a famosa ‘Equação de Drake’, e como a descoberta de vida extraterrestre poderia afetar as religiões estabelecidas. Depois Sagan fala sobre as diversas formas de crenças que estão sobre o signo de ‘Deus’ e algumas de explicações sobre a crença nele.
A origem e função social das religiões também é um tema bastante discutido, a funcionalidade das preces também, incluindo a explicação dada por Freud para estes temas e uma deliciosa possível origem hormonal das religiões proposta por Sagan. A seguir o tema é como o ser humano teve a capacidade de criar tecnologia para se autodestruir por completo, como as palestras foram dadas na década de 1980 o grande temor de Sagan era a guerra nuclear, que afortunadamente é um tema que não nos preocupa mais tanto na segunda década do século XXI. E uma defesa pela busca do conhecimento sem preconceitos é feita do capítulo de encerramento. Ainda há um apêndice com as perguntas da plateia e as respostas de Sagan.
O livro é fantástico, apesar de ser apenas uma mostra do quão boa era a divulgação científica feita por Sagan. É impossível ler o livro e não passar a ser um entusiasta da ciência e pela busca do conhecimento, seja ele qual for. Sagan é uma vela na escuridão dos teleenvangelistas-capitalistas e do fanatismo e intolerância religiosa. É um livro obrigatório para todos.
Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas e meia.

19/04/2011

“Mapas do acaso – 45 variações sobre um mesmo tema” de Humberto Gessinger. Belas Letras (2011), 139 páginas.

Este é o segundo livro de Gessinger em dois anos. O primeiro já tinha me decepcionado enormemente, “Pra ser sincero”, este segundo foi ainda mais decepcionante. Aliás, não sei se livro seria a classificação mais adequada, esta obra é formada por várias espécies de crônicas desconexas, desarticulas, mal escritas e sem sentido. Se não fosse um de meus heróis o autor, eu simplesmente não teria lido até o final e nem me daria o trabalho de comentar sobre a leitura, mas como é o Gessinger...

As frases feitas, que são exageradamente usadas no primeiro livro, estão de volta. Todo capítulo (crônica?) começa com um ‘Nota mental para a próxima vida’. Não é uma autobiografia como “Pra ser sincero”, nem sei bem sobre o que é o livro. Parece mais uma conversa de bar com um amigo, ou várias. Diferente de uma conversa, o assunto é sempre sobre a mesma pessoa. Seja os fantasmas que perseguem Gessinger, o design de seus óculos, a facilidade de ter a face vermelha ou sua viagem do Engenheiros para Rússia. Cada um destes temas, e tantos outros, tem uma crônica, em capítulo separado.

Outro aspecto que não agrada no livro são os enxertos. Seja textos públicos em revistas e jornais, no fim ou meio de capítulos, que em sua maioria não contribui ou amplia o tema abordado ou mesmo as letras que estão nos encartes, parece que faltaram páginas para o livro e teve-se que se preencher de alguma forma. Mas mesmo nas letras, há algumas inéditas que valem a pena a leitura e imaginar o Humberto cantando.

Mas a leitura vale para nos deliciarmos com alguns detalhes da vida de nosso herói. Seja para saber sobre o gosto de não gostar de cinema, ou suas bandas esquisitas preferidas ou mesmo detalhes banais como o suposto talento juvenil para vôlei. Outros aspectos me soaram mais interessantes ainda, saber que como eu, ele divide a vida em ciclos de Copa do Mundo, esta parte a maioria das mulheres jamais entenderá.

Enfim, o livro não é bom, mas é o Gessinger. Quando ele lançar qualquer outra coisa, seja livro ou disco, eu serei um dos primeiros a comprar. Mesmo que ele só faça obras sem qualidade literária o resto da vida, ele ainda tem crédito com todos nós que crescemos ouvindo suas poesias em forma de música. Talvez esteja aí o X da questão, ele devia se dedicar a um livro de poesia e não prosa. Quem sabe?

Classificação pessoal e arbitrária: duas estrelas e meia.

11/04/2011

"O que Keith Richards faria em seu lugar" de Jessica Pallington West. Fontanar (2010), 264 páginas.


Esta não é a autobiografia de Keith Richards que se chama “Vida”, é um livro escrito por uma fã dos Stones, que trata Richards como um ídolo, na versão mais inocente do termo. O livro é divido em seis capítulos, dos quais apenas dois são bons, os outros são uma perda de tempo.

Os capítulos que valem a pena são o dois que dá nome ao livro; O que Keith faria?, e o três; Keith e Nietzsche. O dois traz uma série de situações delicadas que cada um de nós passamos ao longe de nossa vida, como por exemplo quando os outros passam por cima de você ou quando estamos sobrecarregados. A autora busca na vida de Keith o que ele fez quando se encontrava nestas situações difíceis, e nos descreve como ele as superou. Este capítulo é quase um livro de autoajuda, mas não deixa de ser divertido e alguns conselhos dados por Richards via West não deixam de ser ‘aproveitáveis’, como ter consciência que ninguém de nós é mais especial que os outros.

O capítulo três é o melhor de todos, nele a autora trata Keith como um filósofo a ser seguido, e funda inclusive o Keithrismo. Neste ponto é impossível não lembrar da filosofia barata de Quincas Borba em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o Humanitismo. A parte mais divertida é quando West compara frases famosas de grandes filósofos com algumas ditas por Richards. Ela separa esta comparação em partes como quando compara Keith aos gregos Aristóteles e Platão; uma frase de Aristóteles citada ‘Homens maus são cheios de arrependimentos’ é seguida pela de Keith ‘Não me arrependo de nada’. Depois faz o mesmo com Santo Agostinho, John Locke, Rousseau, Kierkegaard e por último Nietzche, uma frase de Nietzche citada ‘No final, a pessoa só experimenta a si mesma’ e de Richards ‘Eu tenho que viver comigo... E me seguiria a qualquer lugar’. E ainda há uma parte adicional com filósofos ocidentais.

Os outros capítulos são uma perda de tempo. O primeiro a autora declama 26 mandamentos do Keithirismo, que não tem a menor graça; como o 11° Conquise os clássicos e o 20° Talimãs têm poder. O maior deles, o cinco ‘A perspicácia e a sabedoria de Keith Richards’ é uma coleção de frases de Richards sobre os mais diversos assuntos, é difícil chegar ao final do capítulo, mas com um pouco de teimosia é possível. O seis é uma cronologia da vida de Keith, que é o que chega mais perto de uma biografia, e o livro termina com a receita do prato preferido de Richards, torta de carne moída com purê de batatas.

A ideia do livro, que dá nome a ele inclusive, é original, mas não rendeu um livro inteiro. Por isto a autora teve que preencher com outros tópicos, como a coleção de frases que são recordes entediantes. O livro vale por dois de seus capítulos, mas não chega a empolgar em nenhum momento e não se trata de uma leitura indispensável.


Classificação pessoal e arbitrária: duas estrelas

28/03/2011

"Feliz Ano Novo" de Rubem Fonseca. Agir (2010), 152 páginas.

Rubem Fonseca dispensa maiores apresentações, trata-se de um de nossos maiores escritores vivos, autor de, entre outros, “Agosto”. “Feliz ano novo” é uma obra originalmente publicada em 1975, trata-se de uma coleção de contos, quinze, onde a temática sempre gira em torno da violência com grandes pitadas de sexo e abismo social e um pouco de ironia. São todos contos muito bem escritos, muito bem articulados e com enredo envolvente; o texto de Fonseca sempre é impecável e atraente.
Alguns dos contos Fonseca parece ter escrito para chocar com a violência. Em um conto existe um assalto seguido de mortes e estupros, as mortes sendo por motivo banal, a de testar o poder de uma arma. Outros trazem assassinos que matam só por prazer, sendo chefe de família que após o trabalho se divertem matando pessoas. Alguns trazem assassinos por acaso, como donas de casa de resolvem matar para resolver alguns problemas que as afligem.
A questão do sexo é outra com que Fonseca parece querer chocar, tanto que o último conto do livro ele escreve uma entrevista com um escritor, que parece ser seu alterego, que se defende de acusações de escrever pornografias; seria uma defesa antecipada as críticas dos leitores? Outros contos falam de grandes empresários que se envolvem com travestis, prostituição, de cenas de sexos não consumadas e até sobre uma competição de quantidade de sexo há um conto.
O que mais chama atenção nos contos de Fonseca são as finas ironias, muitas que envolvem questões sociais, que pela época que foi escrito, não podiam ser críticas muito contundente. Favelados assaltantes, pobres que sonham em ser jogadores de futebol e não conseguem, desempregados que perdem a esposa para gente com trabalho e a humilhação do pedido de dinheiro de um amigo para outro são alguns dos temas tratados por Fonseca.
Existem outros contos que a ironia não é tão fina, é mais escachada, mas não envolve questões sociais. Um envolve canibalismo, outro questões de homossexualidade, além de um escritor que se considera um grande mestre, mas sem talento algum que acaba se envolvendo com acusação injusta de homicídio.
Em pouco mais de 150 páginas Fonseca nos mostra como se escreve em alto nível, com narrativas envolventes e muito diferentes umas das outras. Fonseca é um mestre, que vale ser lido e relido. Imperdível, sempre!

Classificação pessoal e arbitrária: cinco estrelas

10/03/2011

"Um erro emocional" de Cristovão Tezza. Record (2010), 192 páginas

Cristovão Tezza é um dos mais reconhecidos escritores brasileiros contemporâneos, absolutamente consagrado depois de “O filho eterno”. “Um erro emocional” é seu mais recente romance, ele não é tão sincero e tocante como “O filho eterno” tampouco tão original como “Trapo”, mas mesmo assim não deixa de ser um belo romance escrito no mais alto nível por um de nossos maiores escritores da atualidade.
Toda a narrativa se passa em uma noite no apartamento de Beatriz, uma divorciada que mora sozinha em Curitiba. Na noite que se passa a narrativa, ela recebe a visita de seu escritor favorito, Paulo Donetti, que está em Curitiba para um evento e conhece por acaso Beatriz enquanto ela jantava com um amigo em comum deles. A trama em si, Tezza não descreve nada espetacular, nenhum enredo envolvendo ou que deixa o leitor ansioso para saber o final, se trata de uma narrativa de pessoas comuns, com vidas comuns como todos nós. A grande atração do livro é o texto de Tezza, que nos deleita a cada nova página.
Na trama, Paulo chega no apartamento de Beatriz se declarando apaixonado e com um pedido, que ela digitalize e revise seu novo romance. Paulo se acha um autor em decadência, que já parece ter escrito sua grande obra que é várias vezes citada no livro, “A fotografia no espelho”, e teme nunca mais escrever nada no mesmo nível; seria uma referência de Tezza a ele próprio e sua obra máxima, “O filho eterno”? Seria Donetti o alterego de Tezza?
No transcorrer da noite, Tezza nos leva a conhecer a vida de Paulo e Beatriz. As sessões de análise de Paulo são o artifício usado por Tezza para nos contar sobre Paulo, desde o início da carreira até aquela noite, sem grandes acontecimentos e nada incomum. Para contar a vida de Beatriz, ele usa conversas com amigas imaginárias em que ela confessa desde que traiu o ex-marido até que é estéril, passando pela dor de ter perdido a família em um acidente.
O que não agradou em “Um erro emocional” foi a falta de rigor na pontuação; seria uma influencia de Saramago e Lobo Antunes? Esta licença que os grandes escritores tomam para não respeitar as regras feitas para todos não é uma coisa que me deixe feliz, regras são iguais para todos. Apesar disto, “Um erro emocional” é literatura em alto nível, como tudo que já li de Tezza.

Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas

26/02/2011

Torres, RS. A mais bela praia gaúcha.



O Rio Grande do Sul não é famoso por suas praias, mas no seu litoral norte na divisa com Santa Catarina se encontra um tesouro, Torres. Apesar da água não ser das mais agradáveis para banho, o visual compensa qualquer coisa, paisagem de tirar o fôlego, é isto que Torres tem para nos oferecer.

Pode-se começar para mais famosa de todas as suas praias, a da Guarita; o local mais lindo da cidade. São dois paredões, duas torres que dão nome a cidade, enormes, que estão intercalados por outro conhecido como “Pedra do meio”. Existe como se caminhar nos paredões com uma escada, e vale a pena, o visual é de tirar o fôlego. A praia, como é longe para ir caminhando do centro da cidade e só se chega por carro, tem muito menos gente do que se poderia esperar, inclusive no verão a praia não fica muito lotada.

Do outro lado do paredão “Torre Sul” está a praia de Fora. De lado da “Torre Norte” está a Praia da Cal, que é muito conhecida pela prática de Surf. Apesar de ter menos de um quilômetro, a praia vale uma visita, é uma linda enseada. Apesar da temperatura da água não se muito convidativa, a paisagem vale a pena.

O segundo lugar mais bonito da cidade é o Morro do Farol. Lá, além do farol que dá nome ao morro, pode-se apreciar, no verão, uma pista para vôo. Mas o principal é a paisagem. Pode-se apreciar a Guarita, a Ilha dos Lobos, a Praia da Cal, Prainha, a Praia Grande e Santa Catarina. O lugar é lindo, e pode-se passar uma tarde inteira apreciando a paisagem, mas o melhor horário é o por ou nascer do sol.

Mais ao norte estão a Praia Grande e a Prainha. A primeira, que é a mais movimentada, fica bem no centro da cidade e é cheia de quiosques e com uma infra-estrutura excelente que não existe nas outras praias. Estas praias não são muito diferentes das outras do Rio Grande do Sul, e não têm nenhum atrativo especial como a da Cal e principalmente a da Guarita. A água é muito fria, o que não possibilita um banho muito agradável. Mas em termos de opções gastronômicas e diversão, elas são as mais bem preparadas da cidade.

O que falta a Torres são opções culturais, elas não existem. Ao turista, se oferece as belezas naturais e mais nada. Nenhum museu que merece destaque ou opções para um dia de muita chuva.

Classificação pessoal e arbitrária: três estrelas e meia.

06/02/2011

Manaus, Amazonas. A metrópole da Amazônia

Manaus fica a mais de 4500 km de Porto Alegre, de onde a viagem de avião leva mais de seis horas, dependendo do tempo de conexão, já que não há voos diretos do sul do Brasil até a capital do Amazonas. A cidade fica na união dos rios Negro e Solimões no meio da floresta amazônica, é uma das dez cidades mais visitadas do Brasil e tem uma região metropolitana de mais de dois milhões de habitantes, o que já justifica a viagem longa para conhecer a cidade com estes atributos tão peculiares.
O local para se hospedar mais indicado é o centro da cidade, fica perto dos pontos turísticos e de onde pode-se pegar ônibus para todos os pontos da cidade. Não é difícil conseguir hotel com diárias a menos de R$ 100,00 incluindo café da manhã. A tarifa do ônibus custa R$ 2,25 e ainda existe a opção das lotações a R$ 3,00. De lá pode-se ir até aos shoppings da cidade como o Manaura e o Amazonas que não ficam devendo nada aos shoppings das grandes cidades do sul do Brasil.
O primeiro local a se visitar é o maior cartão postal de Manaus, erguido com o dinheiro dos barões da borracha, o Teatro Amazonas é uma pérola no meio da Amazônia fundado em 1896. Durante o dia o teatro oferece uma visita guiada ao custo de R$ 10,00 que inicia de hora em hora e que dura cerca de 40 minutos. O teatro é lindo, tem afrescos em estilo renacentistas feitos por artistas italianos, alguns deles em perspectiva, é quase um museu de artes. Existe um pequeno museu e pode-se conhecer quase todas as instalações do teatro durante o tour, imperdível. Além disto ainda pode-se assistia a concertos, muitos grátis. Eu tive a oportunidade de assistir um concerto da Filarmônica de Manaus tocando Tchaikovsky em uma quinta a noite, um espetáculo realmente!

Na frente do teatro está o Largo São Sebastião e o monumento comemorativa a abertura dos portos. A Igreja de São Sebastião também faz parte do complexo, ela foi construída em 1888 e é muito bonita.
Seguindo pela rua Eduardo Ribeiro, a dos fundos do teatro, por cerca de 500 metros chega-se a Matriz Nossa Senhora da Conceição, que fica em uma praça cercada bem na zona central da cidade. Muito próximo da igreja fica o relógio municipal e a Alfândega, ambos são construções que têm arquitetura que vale ser apreciada. Um pouco mais de caminhada e o Porto Flutuante de Manaus aparece. Ele é diferente de todos os portos que eu já havia visitado, pode-se encontrar desde Transatlânticos luxuosos até os barcos de madeiras grandes que transportam pessoas que dormem na sua própria rede em viagem que podem levar mais de seis dias.
No porto pode-se contratar os passeios mais legais da capital amazonense. O mais indicado é o que vai ao encontro dos Rios Negros e Solimões, que é muito lindo, é possível sentir a diferença de temperatura e de cor no encontro dos dois rios que vão se misturar para formar o Rio Amazonas só depois de seis quilômetros. Lá pequenos barcos trazem animais como a preguiças, jacarés e sucuris para que se possa bater foto a R$ 2,00 por bicho.

Depois o tour passa por comunidade ribeirinhas com suas casas, lojas e até igrejas flutuantes. Ainda se visita um criadouro de pirarucu que pode atinguir mais de cem quilos. Pode-se bater uma foto como se estivesse o pescando ao custo de R$ 7,00. Após isto o tour faz uma pausa para almoço no meio da selva, com peixes como o pirarucu. O almoço normalmente está incluído no preço do pacote, mas a bebida é por conta do turista. Aos fundos do restaurante está uma feirinha de artesanato indígena que os próprios vendem.
Após o almoço o tour continua até a visita as maiores flores que existem, as vitórias régias. As maiores podem suportar um corpo de até oito quilos. Para se chegar até lá, se faz uma pequenas trilha de onde pode-se apreciar um pouco da selva.
Depois de mais um trecho de barco chegamos a floresta inundada. Este trecho da selva pode se chegar somente no período do verão no hemisfério sul, durante o inverno todo este trecho fica embaixo da água do rio Solimões. É muito interesse ver o nível que a água chega na marca das árvores grandes. Neste local pode apreciar um pouco da floresta amazônica, seringueiras e outras árvores típicas, algumas preguiças e aves em seu ambiente natural também.
Depois voltamos ao porto pelas águas do Rio Solimões e do Negro. O preço do passeio depende da negociação e do número de pessoas, mas gira desde R$ 90,00 até R$ 130,00 e dura das 9h até as 15h. Além destes existem outros como a visita aos botos cor-de-rosa.
Voltando a região central, existem ainda duas atrações que não podem deixar de serem visitadas. Uma delas é o Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Apesar de ele estar em reforma, suas bancas estão em local improvisado ao redor de onde vai ficar o mercado. Ali pode-se encontrar muita coisa que jamais se poderia imaginar que existiria no sul do Brasil. Além disto pode-se ver os pratos servidos ao frequentadores do mercado, principalmente os peixes da Amazônia servidos fritos.
A outra opção imperdível no centro da cidade é a Praça da Polícia, que foi recentemente reformada. Lá existe alguns restaurantes que abrem a noite. Suas pontes, laginho e um coreto completam a atmosfera agradabilíssima da praça. Ainda está localizada lá o Palácio Provincial, que é o antigo quartel da polícia que hoje abriga alguns museus. Um deles é o próprio Museu da Polícia, outro da Imagem e do Som, réplicas de esculturas famosas e uma pinacoteca muito apreciável. Todas as entradas são gratuitas e pode-se ficar por lá facilmente por uma tarde inteira.

Conhecer uma das maiores florestas do mundo sem sair do conforto de uma grande cidade com que tudo que uma metrópole pode oferecer é fantástico. Apesar disto, existem algumas coisas desagradáveis em Manaus, como a sujeira, o trânsito e o transporte coletiva mal organizado e ruim. Outra é o preço das frutas e da comida muito alto, inclusive os que vem da própria Amazônia. Fora da zona central, nos bairros o encanto da cidade termina. Isto não impede em nada a visita a Manaus que eu recomendo fortemente.
Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas e meia.

23/01/2011

Curitiba, PR. A capital ecológica do Brasil.

Curitiba é a capital do estado do Paraná, fica a cerca de 450 km de Criciúma que podem ser cumpridos em cerca de sete horas de carro sem problemas. São quatro pedágios até lá, todos a R$ 1,25. A viagem vale a pena, a cidade é diferente das outras duas capitais do sul, e tem particularidades não encontradas em qualquer outra cidade que visitei. Em Curitiba convivem em harmonia preservação da história, do verde, incentivo a cultura e grandes doses de cosmopolismo.

Uma boa opção para se conhecer a cidade é utilizar a Linha Turismo, que sai da Praça Tiradentes e custa R$ 20,00. O ônibus passa por vinte e quatro pontos turísticos e o passageiro pode descer em quatro a sua escolha. Antes de embarcar, no entanto, o turista pode visitar a Catedral Basílica Nossa Senhora da Luz na Praça Tiradentes. Esta igreja em estilo gótico tem sua fachada muito bonita, vale a pena a fotografia. O interior, no entanto, é bem desconfigurado e não é tão bonito.

O primeiro ponto turístico é a Rua das Flores, depois o Museu Ferroviário, Teatro Paiol e em seguida o Jardim Botânico; que é parada obrigatória. Este é um dos grandes cartões postais de Curitiba, principalmente a sua estufa de vidro com três abóbadas. Mas o Jardim Botânico tem muito mais que isto: trilhas em bosque, velódromo, uma grande área verde e um jardim lindo. A entrada é gratuita e existe um café e lojas de lembranças.

Tomando a Linha Turismo, a próxima parada é Mercado Municipal; este local é uma visita imperdível, como outros mercados do tipo (os mercados públicos de Porto Alegre, Florianópolis e São Paulo, por exemplo) pode-se encontrar diversos produtos de qualidade e frutas das melhores procedências. O de Curitiba fica devendo aos outros na fachada, que em nada é atraente e indica a grande atração que é seu interior. Outro ponto positivo são os preços, que ao contrário dos outros mercados são justos, inclusive os restaurantes do piso superior.

Com uma caminhada de 15 minutos pode-se chegar ao Teatro Guaíra, um dos maiores do Brasil e que pode ser visitado de segunda a sexta até as 15h. Do outro lado da Praça Santos Andrade está o prédio histórico da Universidade do Paraná, uma das primeiras do país; hoje a UFPR. A fachada do prédio é linda, e por dentro pode apreciar seus vitrais e exposições que têm entrada franca. Com outra caminhada de 15 minutos pode-se chegar ao Museu Ferroviário que resgata a importância da estrada de ferro para o desenvolvimento do Paraná e de Curitiba. O museu fica na antiga estação de trem, e traz objetos dos séculos XIX e XX, além de maquetes e documentos. Em anexo está o Estação Shopping, que é um shopping grande e simpático que traz a temática dos trens.

Pode-se pegar a Linha Turismo no Museu Ferroviário e seguir passando pelo passeio público, Memorial ao imigrante árabe, o Centro Cívico e deve-se parar no Museu Oscar Niemeyer, que é a melhor atração de Curitiba e cobra R$ 4,00 o ingresso e tem no hall de entrada um café de alta qualidade e preços justos. Não conheço outro museu igual a este, só a estrutura é uma obra-prima. O museu é enorme, o pátio tem expostas esculturas, seu prédio de entrada tem um grande vão e vários pisos que expõem mostras provisórias. Mas a grande atração é o olho, que se chega por um túnel que passa por baixo de um espelho de água e uma subida que passa por diversas salas cheias de obras de arte. A sala principal do olho expõe uma mostra permanente que inclui obras de Iberê Camargo, Portinari, Tarcila do Amaral entre muitos outros. Se fosse só pelo museu a visita a Curitiba já se justificaria e pode-se passar um dia inteiro facilmente dentro dele.

Após o Museu Oscar Niemeyer a Linha Turismo passa pelos lindos Bosques do Papa e Alemão, Universidade Livre do Meio Ambiente e Parque São Lourenço. A próxima parada obrigatória é no Ópera de Arame. Este é um teatro feito em estrutura tubular no meio de um lago e em uma antiga pedreira, não é cobrado ingresso a visita. O lugar é lindo, para se chegar até no teatro se passa por uma ponte que se pode apreciar no lago abaixo com peixes e a pedreira ao lado. No subsolo existe um café que pode tomar algo apreciando a paisagem linda. Do outro lado da pedreira está um grande anfiteatro para mais de 50 mil pessoas que está em desuso atualmente, o lugar é conhecido como Pedreira Paulo Lemiski.

Após o Ópera de Arame a Linha Turismo passa pelos lindos parques Tanguá e Tingui, pelo Portal Italiano e o bairro de Santa Felicidade – o grande centro gastronômico da cidade, outro lindo parque Barigui e a Torre Panorâmica até voltar para a Praça Tiradentes. Na praça pode-se tomar um táxi até outro ponto que não pode deixar de ser visitado, a Arena da Baixada. A corrida custa cerca de R$ 17,00 e o Atlético (dono do estádio) oferece tour de hora em hora ao custo de R$ 7,00. O tour leva pelos vestiários, arquibancadas, camarotes, a beira do gramado e um pequeno museu. Vale a pena a visita para os amantes de futebol.

Curitiba não tem praia, tampouco paisagens naturais de tirar o fôlego. Mas compensa por seus parques lindos, grande preservação histórica e atividade cultural e gastronômicas. É uma cidade singular, que só por isto deve ser visitada e que tem um dos museus mais bonitos que existem. O trânsito é muito bem sinalizado e o transporte coletivo funciona muito bem.
Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas

10/01/2011

Joinville, a cidade dos Príncipes

Joinville fica cerca de 350 km de Criciúma, de carro a viagem leva em torno de cinco horas. A cidade que foi colonizada por alemães, recebe o apelido de “Cidade dos Príncipes”, pois foi dada como presente de casamento entre a filha de D. Pedro I e o príncipe de Joinville, cidade francesa; no entanto, eles nunca visitaram a cidade, vendendo mais tarde parte dela a alemães de Hamburgo que vieram colonizar o território em meados do século XIX.

Logo no início da cidade, as margens da BR-101 está o pórtico da XV de Novembro, em estilo alemão ele dá as boas-vindas aos visitantes. Além do pórtico, há outra atração em estilo germânico ao lado que é o Moinho, que atualmente não está disponível para visita do público. Próximo do pórtico se encontro o parque Expoville que possui um centro comercial com bastante artesanato e chocolates caseiros, além de uma grande área verde que vale a visita.

A seguir, indo de carro pela rua XV de Novembro se chega ao centro, onde se encontra a maioria das atrações turísticas da cidade. Pode-se deixar o carro estacionado no Shopping Mueller (R$ 3,00 por quatro horas e R$ 1,00 por hora adicional), de lá a maioria das atrações podem ser alcançadas a pé. A primeira visita pode ser a famosa Rua das Palmeiras, em frente ao palácio dos príncipes, que hoje é o Museu Nacional de Imigração e Colonização. O museu é um tributo aos colonizadores que construíram a cidade, ele é constituído da casa principal (o antigo palácio dos príncipes) além de mais três espaços aos fundos, que expõem ferramentas (galpão de tecnologia), viaturas de tração animal e carroções (galpão dos meios de transporte) e que reproduzem uma típica casa da época da colonização (Casa de Enxaimel). A entrada é gratuita.

Próximo ao Shopping Mueller está o Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, que foi o primeiro a ser fundado no Brasil ainda no Século XIX pelos imigrantes. Neste local está o Museu Nacional do Bombeiro, onde se pode conhecer a história dos bombeiros, desde como eles combatiam os incêndios no século XIX até os dias atuais. Entre as curiosidades, pode ver o pau de sebo, a torre e vários equipamentos antigos. A entrada é gratuita se há um bombeiro que guia a visita.

Um pouco mais distante está a Praça da Bandeira, a caminho do Museu de Sambaqui que expõe os vários achados arqueológicos encontrados na cidade de Joinville. São vários artefatos pré-coloniais expostos, de conchas a ossos de mamíferos e crânio humanos. É um passeio pelo passado remoto da cidade, a visita é gratuita.


Após um dez minutos de caminhada, se chega ao Cemitério do Imigrante e Casa da Memória, esta foi a casa do antigo coveiro do Cemitério Protestante. Ele esteve em funcionamento de 1851 até 1913, estão sepultados até hoje mais de duas mil pessoas em mais de 490 sepulturas. Visitar túmulos de mais de 150 anos e saber que estão ali os primeiros colonizadores é uma experiência marcante.


Seguindo a pé pela XV de Novembro encontra-se o Museu de Arte de Joinville e a Cidadela Cultural Antarctica, ambos dedicados a Arte. A Cidadela, antiga fábrica da cervejaria, tem galpões onde há arte contemporânea. O Museu tem um acervo com mais de 700 obras de arte, não é um museu em nível das grandes capitais, mas vale a visita que é gratuita.

Além destas atrações tem outras que não pude visitas. Entre as que mais se destacam estão a Escola do Teatro Boishoi, que deve ser agendada antecipadamente, o Mercado Municipal e a Estação da Memória (antiga estação de trem de Joinville).

A cidade de Joinville não é conhecida por suas atrações turísticas, e sim pela sua pujança econômica. No entanto, é um ótimo exemplo de cidade que preserva sua história e mantém a cidade organizada apesar dos mais de meio milhão de habitantes. Vale a pena visitar para conhecer uma cidade que é diferente das cidades de outras regiões, ou mesmo de Santa Catarina, pois é muito diferentes de Criciúma, Florianópolis e Chapecó, que ficam no mesmo estado, que apesar de pequeno, mostra uma diversidade que vale a pena ser conhecida.


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Classificação pessoal e arbitrária: três estrelas e meia.

30/12/2010

“Eu sou Ozzy” de Ozzy Osbourne e Chris Ayres. Benvirá (2010), 380 páginas.

Todos os fãs de rock devem conhecer bem Ozzy como um dos fundadores do heavy metal quando fazia parte do Black Sabbath. Talvez para os não-rockeiros, ele seja aquele chefe de família engraçado do seriado “The Osbournes” da MTV. Para todos os dois grupos esta autobiografia, escrito junto com Chris Ayres, é imperdível. Este é o livro mais engraçado que eu já li na vida, nunca ri tanto como lendo estas quase 400 páginas de histórias impagáveis. Mas ele não se resume a episódios hilários, tem drama, traições e muita droga pesada. Em suma, tudo que se quer ler quando se escolhe uma biografia, mas a de Ozzy vai além das expectativas.

O livro chega ao leitor com um tom de sinceridade e deboche desde o início. Ozzy não economiza nos palavrões, e se fosse ao contrário não soaria uma obra sincera. Ozzy conta desde sua vida modesta em uma cidade industrial no Inglaterra e inicia o livro com o episódio que marcou sua vida, a prisão logo na adolescência por roubo, quando decidiu que nunca mais queria voltar para trás das grades depois de seis meses em uma penitenciária britânica.

A passagem para os fãs do rock mais esperada é como o Black Sabbath “inventou” o heavy metal, o que Ozzy descreve como quase uma fatalidade. Outro ponto que vai chamar muito a atenção dos rockeiros é que Ozzy, que muitos já chamaram de “Príncipe das Trevas”, nunca levou a história de satanismo muito a sério e sempre considerou isto uma grande piada, ou uma jogada de marketing como chamaríamos nos anos 2000.

Entre as histórias hilárias estão que Ozzy nunca conseguiu tirar carteira de motorista e quando urinou no Álamo em San Antonio, indo parar direto para a prisão. Outras destas histórias que são muito boas: quando Ozzy arrancou a cabeça de uma pomba viva durante uma reunião com a gravadora para impressioná-los e quando arrancou a cabeça de um morcego vivo durante um show achando que era de plástico.

Um dos pontos de drama foi quando ele foi demitido do Black Sabbath pelas suas constantes bebedeiras e como ele ficou no fundo do poço. A importância de Sharon, sua atual esposa e mãe de três de seus cinco filhos, na retomada da carreira mostra que Ozzy não seria Ozzy sem Sharon. Outro drama, a morte do guitarrista e amigo Randy Rhoads em um acidente áreo, também foi superada graças a Sharon. A tentativa de assassinato de Sharon por Ozzy é contada em detalhes por ele, pelo menos o que ele lembra.

No final, dois dramas pesados, o câncer de Sharon e o grave acidente de moto sofrido por Ozzy que quase o levou a morte. A grande pergunta é como este cara ainda está vivo, como ele pode ter feito tudo que fez e ainda estar aí para deleite dos fãs. Apesar de seu estilo de vida não ser aconselhada para ninguém, ler sua biografia é uma forma de compartilhar todas as suas aventuras, ou para seus fãs, ser um pouco mais fã do cara.

No final, Ozzy ainda dá conselhos ao melhor estilo livro de auto-ajuda que vou tentar seguir, como na página 354: “Nunca acreditei em brigas de longo prazo. Não me entendam errado: já fiquei bravo com pessoas. Muito bravo – com pessoas como Patrick Meehan, ou aquele advogado que tentou me cobrar a bebida ou Bob Daisley. Mas eu não os odeio. Eu não quero que sofram nenhum mal. Eu assumo que odiar alguém é uma completa perda de tempo e esforços. O que você consegue no final? Nada. Não estou tentando ser Arcanjo Gabriel. Só acho que, se você está bravo com alguém, chame-o de bosta, tire isso do seu sistema e siga em frente. Não vamos ficar na Terra por muito tempo”.

Classificação pessoal e arbitrária: cinco estrelas

24/12/2010

“Fora de mim” de Martha Medeiros. Objetiva (2010), 131 páginas.

Sempre coloquei Martha entre meus autores favoritos. Sempre fui um fã declarado de seus textos e um permanente indicador de sua obra a amigos e alunos. Mas confesso que “Fora de mim” foi uma grande decepção para mim, talvez pela enorme expectativa de ser “o novo livro da Martha”, mas ele me desagradou enormemente.

Não se pode chamar de um livro ruim, em hipótese nenhuma, até porque é muito difícil de definir o que é ou não um livro bom e ruim, o que se pode é dizer que um livro nos agradou ou não, e “Fora de mim” não me agradou nem um pouco. Porém, o texto fluido e atraente de Martha continua lá, o livro é muito bem escrito e atraente, o conteúdo que não me tocou.

O livro é sobre uma grande dor de cotovelo, de uma mulher rejeitada pelo namorado. O livro é feminino, mas em hipótese alguma de uma postura feminina forte, ou mesmo feminista, muito pelo contrário. A narradora, a rejeitada, narra todo o livro, mas fala mais do ex-namorado que dela própria. Coloca o ex como centro de sua vida, mesmo que ele não faça mais parte dela. É uma mostra de uma mulher totalmente frágil e dependente de uma figura masculina, apesar da narradora querer nos convencer do contrário. Sempre a procura de alguém que seja um alicerce da sua vida que ela própria não consegue ser, tampouco seus filhos que são mal citados durante a narrativa.

Outra coisa que senti muita falta no livro são as frases tocantes, elas não aparecem em nenhum momento como nos outro livro de Martha. Espero que ela não tenha terminado o estoque delas, eu sentiria muita falta de ler as sentenças espirituosas de Martha que falam muito sobre nós em poucas palavras.

“Fora de mim” é um exemplo de um livro que é muito bem escrito, por um autor ótimo, mas que não agrada, pelo menos a um tipo de leitor. Mesmo assim, vou continuar ansioso pela próxima obra de Martha e entrarei na fila de espera para receber o livro assim que for lançado, porque ela continua sendo uma de meus escritores favoritos.

Classificação pessoal e arbitrária: três estrelas


15/12/2010

“Leite Derramado” de Chico Buarque. Companhia das Letras (2009), 195 páginas.


Chico Buarque é um dos grandes nomes de nossa música, autor de obras-primas. Não seria justo que se exigisse igual qualidade de sua literatura. Porém, o nível que o Chico escritor consegue em “Leite Derramado” não deixaria o Chico compositor envergonhado.

O livro tem como protagonista um moribundo, Eulálio Assumpção, que narra suas lembranças a um ouvinte não definido ou categorizado. Suas memórias são confusas, como era de se esperar de um moribundo. Ele tem fixação com a sua esposa, Matilde, da qual o narrador revela aos poucos o destino e mesmo assim deixa o leitor confuso sobre as versões dos fatos, teria Matilde morrido de doença como hora o narrador deixa a entender, ou de acidente com seu suposto amante como em outro momento fica subentendido. A própria procedência aristocrática que o narrador declara de sua família fica sob suspeita quando se percebe que pode ser tudo invenção de um narrador velho que quer chamar a atenção de um ouvinte. Outro lance que faz o leitor suspeitar que tudo não passar de memórias de um passado inexistente é quando por duas vezes, seus descendentes deixam filhos póstumos, quando um deles morre nos porões da ditadura e outro assassinado por um marido ciumento, que teria sido a mesma forma que o pai do narrador teria morrido.

Porém, mesmo que a história, em suas várias versões conflitantes, seja invenção da cabeça do narrador ela é uma boa história familiar. Envolve várias gerações dos Assumpção, desde sua filha única, Maria Eulália, que fora abandonada por sua mãe e criada pelo narrador, sua ascendência supostamente aristocrática com auge durante a república velha e seus descendentes que chegam ao Rio atual onde um deles é preso por tráfico de drogas. Todos as intrigas familiares estão lá, amores, ciúmes e sentimentos mal resolvidos.

O romance começa devagar, mas aos poucos vai envolvendo o leitor a entrar nas memórias do narrador moribundo. A curiosidade sobre o que teria acontecido com Matilde, esposa do narrador, dá toques de suspense ao livro, incluindo a dúvida se ela teria ou não o traído (alguma semelhança com Dom Casmurro?). E no final a grande ironia da obra, seriam verdadeiras as memórias do narrador? Devido à idade dele, segundo ele 100 anos, nem o próprio poderia com certeza afirmar se o que relata de fato ocorre ou é tudo fruto de sua imaginação.

O texto de Chico não chega a empolgar o leitor, mas sem dúvida é de grande qualidade e trata-se de um bom livro com um enredo bem estruturado e narrado de forma a parecer ser contado por uma pessoa quase centenária. Um livro que não chega a qualidade da música composta pelo autor, mas fica longe de decepcionar.

Classificação pessoal e arbitrária: quatro estrelas